quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Italo Calvino, Se numa noite de inverno um viajante, 1979.

"- Eu também sinto a necessidade de reler os livros que já li - diz um terceiro leitor -, mas em cada releitura parece-me ler pela primeira vez um livro novo. Serei eu que continuo a mudar e vejo coisas novas que antes não tinha notado? Ou a leitura é uma construção que ganha forma juntando um grande número de variáveis e não se pode repetir duas vezes de acordo com o mesmo desenho? Sempre que tento reviver a emoção de uma leitura anterior, obtenho impressões diferentes e inesperadas, e não reencontro as anteriores. Em certas alturas parece-me que entre uma leitura e outra existe um progresso: no sentido por exemplo de penetrar mais no espírito do texto, ou de aumentar a distanciação crítica. Noutras alturas em contrapartida parece-me conservar a lembrança das leituras do mesmo livro uma junto da outra, entusiásticas ou frias ou hostis, dispersas no tempo sem uma perspectiva, sem um fio que as una. A conclusão a que cheguei é de que a leitura é uma operação, sem objecto; ou que o seu verdadeiro objecto é ela própria. o livro é um suporte acessório ou inclusivamente um pretexto."



...


(...o romance mais assombroso e genial que alguma vez li!)

domingo, 18 de novembro de 2018

Estreia: Parece que o Mundo, 22,23 e 25 no Teatro S.Luiz



Estreio na próxima quinta "Parece que o Mundo":

A coreógrafa Clara Andermatt junta-se ao pianista e compositor João Lucas, seu colaborador de longa data. Uma cumplicidade criativa em permanente atualização, alimentada pelo questionamento das relações expressivas entre o movimento e a música. Parece que o Mundo, inspirado na obra Palomar, de Italo Calvino, é uma montra que nos aproxima do mundo que observa e é observado. Conjugando intuição e pensamento metódico, a atenção às coisas movimenta-se pela imensidão daquilo que parece – quer nas relações mais amplas com o cosmos ou com o infinito, quer no âmbito mais restrito das observações quotidianas, construindo os seus símbolos e os seus significados. Com um elenco de bailarinos e músicos, esta peça, tal como a obra que a inspira, movimenta-se em três planos distintos: o da observação, o da narrativa e o da meditação.

DIREÇÃO Clara Andermatt COCRIAÇÃO Clara Andermatt e João Lucas INTÉRPRETES Ana Moreno, Felix Lozano, Gil Dionísio, Joana Guerra, João Madeira, Jolanda Löellmann e Liliana Garcia CENOGRAFIAArtur Pinheiro FIGURINOS Ana Direito DESENHO DE LUZ José Álvaro Correia BANDA SONORA ELETRÓNICAJonas Runa PRODUÇÃO EXECUTIVA ACCCA – Companhia Clara Andermatt APOIOS O Espaço do Tempo, Musibéria, Estúdios Vítor Córdon CNB-TNSC, Jazzy Dance Studios, Playbowling de Cascais, Teatro do Bairro APOIO À DIVULGAÇÃO Antena 2, Lisbon Arte Hotel COPRODUÇÃO Cine-Teatro Louletano, Teatro Municipal do Porto,  Companhia Clara Andermatt e São Luiz Teatro Municipal

foto:Estelle Valente

domingo, 23 de setembro de 2018

"sem palavras nem coisas", António Franco Alexandre, 1974.


https://www.youtube.com/watch?v=1BNiOfHy9Fk

Desde Janeiro temos estado a trabalhar António Franco Alexandre, alojados
em sem palavras nem coisas. Cientes da sua construção até ao ínfimo e de
que desejaríamos um espectáculo como o poema, críptico e epifânico.
Dialógico, entre os metais e as madeiras dos nossos instrumentos.
Guiou-nos primeiro a percepção de uma música a intuir no verso, mediante um
processo de cristalização tonal do discurso. Não menos importante, o mergulho
livre no corpo lexical que o autor visita e comuta: fomos pálpebra, flanco,
mansidão, noite espessa, veias abertas, redes mornas, asas misturadas.
Largas doses de especulação musicológica acabaram em abandono perante a
força de muito do que produzíramos espontaneamente, sempre que soubemos
ouvir. Discernir o tema, continuar a ouvi-lo, cada um na sua cidade, em diferido.
Aceitar que o tema nos escolhe. Reiterar-lhe o nome: mansidão dos pulsos ou
acendo o amor.
Houve um tempo grato, quase luxuoso, de repetição e miscigenação, e um
menos grato, divisivo e mental. Por via da composição em tempo real, escuta e
decantação, chegámos a este sem palavras nem coisas e a uns quantos
possíveis lados b. O decisivo do trabalho, fizemo-lo no Laboratório de
Computação Sonora e Musical da FEUP e no O'Culto da Ajuda, sede da Miso Music. Agradecemos
aos nossos interlocutores, Rui Penha e Miguel Azguime; se nos lançamos hoje
em assalto à beleza, entre o plano e o acidente, é também por vossa causa.
João Madeira
Constança Carvalho Homem
Setembro, 2018
YOUTUBE.COM
de João Madeira e Constança Carvalho Homem a partir de António Franco Alexandre O’culto da Ajuda Miso Music Portugal art music centre because…

domingo, 16 de setembro de 2018

sem palavras nem coisas . João Madeira e Constança C. Homem

22 de Set. de 2018 21:30

O'culto da Ajuda

22 de Setembro de 2018 | 21h30 |
 O'culto da Ajuda | Lisboa

SEM PALAVRAS NEM COISAS . João Madeira e Constança C. Homem

«sem palavras nem coisas», de 1974, é um exemplo ímpar do ofício de António Franco Alexandre. Poema improvavelmente maturo, assume-se como exercício ficcional e privilegiado território plástico, sonoro. Na afinidade procurada entre voz e contrabaixo, João Madeira e Constança Carvalho Homem apresentam os frutos de uma residência guiada por três grandes questões: como tornar audível o sentido sem desvirtuar uma estratégia inerente de camuflagem? que alusões musicais poderão estar presentes, espessar a vocação performativa do poema? que compromisso entre plano e entropia, improvisação e partitura?

de João Madeira e Constança Carvalho Homem
a partir de António Franco Alexandre

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Golfo Místico - Transição @ Zaratan, Lx, Festival Múltiplo, 16/08/2018

Resta-me lembrar-vos que esta quinta 16, na Zaratan acontecerá um momento único. Vou dirigir um ensemble de músicos Grandes - Carlos Zingaro no violino, Miguel Mira no violoncelo em 4ªs, Paulo Curado na flauta, José Bruno Parrinha nos clarinetes, Bb e Baixo, Constaça C. Homem com a sua voz e Nuno Morão com percussões, - para juntos fazermos a banda sonora da performance da Helen Ainsworth e os seus bonecos de papel, elaborados em tempo real, tal como a música...! Todos teremos presente um dos temas mais importantes, pessoal e profissionalmente, para a Helen - a Rhapsody in Blue de G. Gershwin... especialmente eu e a minha "composição", na qual haverão muitas surpresas...
- É assim que funciona o Golfo Místico!
Algumas coisas posso prometer: os músicos tocarão nas suas sete quintas, porque os conheço muito bem(!) e a Helen está entusiasmadíssima com improvisar a partir de uma das suas músicas da vida!... Não percam, por favor, no Fetival Múltiplo 2018!


domingo, 12 de agosto de 2018

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Homem Madeira

O trabalho fascinante que tenho desenvolvido com a Constança C. Homem e que promete novidades ainda para 2018 e quiçá, 2019!

https://soundcloud.com/homemmadeira/em-maio

Ouçam! Opinem o que aprouver...!

Em progresso, e residência artística na FEUP durante a próxima semana...

O caldeirão vai ferver!

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido, 1927. Vol.7, O Tempo Reencontrado



"Mas, ao menos, se tais forças me fossem concedidas pelo tempo suficiente para realizar a minha obra, não deixaria acima de tudo de descrever nela os homens, ainda que tal os fizesse parecerem-se com uns seres monstruosos, uns seres que ocupam um lugar tão considerável comparado com o tão restrito lugar que lhes está reservado no espaço, um lugar de facto desmedidamente prolongado, visto que, como gigantes imersos nos anos, eles atingem simultaneamente épocas tão distantes, entre as quais tantos dias ocuparam o seu lugar: no Tempo."

terça-feira, 8 de maio de 2018

A Minha Curta Biografia, Hoje.

João Madeira começou a estudar contrabaixo no
Conservatório, aos 12 anos, e seguiu depois o seu próprio percurso, tendo iniciado a sua pesquisa estética pela poesia, com um livro de poemas, publicado em 2002. Após a sua licenciatura em Musicologia em 2003, fez investigação, coordenou um sector cultural público, iniciando depois a actividade pedagógica que desenvolve actualmente. Estudou diversas linguagens musicais extra-ocidentais, antes de se dedicar exclusivamente à improvisação livre / composição. No teatro e cinema, colaborou como compositor, músico, actor, sonoplasta e director musical – A Fabrica de Nada, Agora eu era, África de José de Guimarães, ou Para Acabar são algumas das suas participações. A solo destaca-se o seu projecto de vídeo-art Aero (2011), mas actualmente é reconhecido pela sua colaboração regular com a V.G.O. de Ernesto Rodrigues, pelo trabalho desenvolvido com o seu trio GALMADRUA, bem como o dueto com Hernâni Faustino, ou as suas parcerias com Margarida Mestre e Constança C. Homem, em projectos multidisciplinares, contexto artístico que, desde sempre, privilegia.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

João Madeira Cv Curriculum Vitae

JOÃO MADEIRA
Musician Composer
Calçada da Memória, 44 A
1300-398 Lisbon, PORTUGAL
+351(PT) 916455068
 
EDUCATION
- National Conservatory Music School, Lisbon. Doublebass Teacher – João Panta-Nunes.
- Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Graduated in Musicology, 2003. Teachers -Rui Vieira Nery, Salwa Castelo Branco, Mário Vieira de Carvalho.

Professional experience
- Investigator on the research for the aplication of the Fado heritage by Unesco, 2004.
- Coordinator of the Music Sector in INATEL headquarters, 2006.
- Since 2003, teacher in private and public schools (in Lisbon and O’Porto) - music teory, music initiation, music expression, music history, music education, áudio/multimédia, studio introdution, choir conductor, piano, guitar, bisel flute, ukelele, bass and doublebass.

 
 
Theater
2004, As aventuras do Grão de Bico, O Bando, Musician interpreter.
2005, A Fábrica de Nada, Artistas Unidos, Dir. Jorge Silva Melo, Musician/performer.
2007, Agora Eu Era, Companhia de Teatro do Chapitô, Co-creator, Musician, Actor.
2009, O Ginjal, Casa Conveniente, Dir. Mónica Calle, Musician/performer.
2012, As ruas estão tão tristes..., Divas Iludidas, Musician/performer.
2013, Para Acabar, A. Artaud, Constança C. Homem & JM, Co-creator, Actor, Musican.
2014, Grande Noite do Fado, Divas Iludidas, Musician/performer.
2015, Recital Popular, João Madeira & Margarida Mestre & local comunity, Festival do Silêncio, Co-creator, Musician/performer.
2016, A História do Urso e do Gato Selvagem, Corpo-de-Hoje, Dir. Ana Borges, Performer, Actor.
2017, Recital Popular II, João Madeira & Margarida Mestre and local comunity, Festival do Silêncio, Co-creator, Musician/performer.
 
Video/cinema
2012, A África de José de Guimarães, Jorge Silva Melo & Miguel Aguiar, Artistas Unidos / Guimarães 2012, Original Music.
2013, O Antropomorfo, Vítor Alves & Miguel Aguiar, LxFilmes, Original Music.
2017, A Travers Souto, Eduardo Souto de Moura Architecture, Catherine Dethy, Alexandre Caldara, João Madeira, Luc Gobyn, Les Autres / Piningobini, Original Music.

Other Skills and experiences
1999, Workshop Choral Conduction, José Robert.
1998-2003, Portuguese Literature optional disciplines, U.N.L. – F.C.S.H, Teachers - Clara Crabbé Rocha, Isabel Allegro de Magalhães.
2002, ...E a lua forma-se luar, João Madeira, Aríon Publicações / Assírio&Alvim, a poetry book.
Since 2005, Musician Coordinator in GDA, Gestão dos Direitos dos Artistas.
2006, Research on Viola Campaniça, João Madeira & Pé de Xumbo, Program for 1 year borrowed traditional instruments.
Since 2012, MIA, Encontros de Música Improvisada da Atouguia.
2012, Vasco da Gama, Harmattan Theater, Live Street Performance in Lisbon.
Since 2013, Improchamber, Paulo Chagas, Composition for an Improvisers suite , Atouguia da Baleia’s Church, Musicians – Carlos “Zíngaro”, Miguel Mira, Paulo Chagas, Paulo Curado, Fernando Simões.
Since 2015, Member of Granular, Associação de Músicos Improvisadores.
2015, Superterz – Insomnia Sessions – Maus Hábitos, Porto, Musicians - Marcel Vaid, Ravi Vaid, Simon Berz, Koho Mori-Newton, Carlos “Zíngaro”, Hilaria Kramer.
2016, Pedra Papel Tesoura, João Madeira & François Choiselat (Vibraphone), Flores do Cabo, Sintra, 4 Live Improvisations / Multidisciplinary Performances – with Dance, VideoArt live acting, Puppets live acting, and Human Voice – Rita Maria.
2016, Vexations, Erik Satie, world debut presentation, Eduardo Sérgio score interpretation, Sintra. 

 

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Poética, Vinicius de Moraes.

Poética I

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.

Vinicius de Moraes

sábado, 8 de julho de 2017

Gilberto Mendonça Teles, Falavra, 1972.

"As palavras engendram suas próprias
aventuras no espaço. Sendo neutras,
circulam como sombras devolutas
surpresas nos seus altos ministérios.

De vez em quando saltam novas ordens
desses seres volúveis que se alinham
noutro nível,
                    por entre a voz do que é
e a franja do mistério que se instaura
e transparece, arbitrário.

Ante os nervos das cordas e dos tímpanos
uma Falavra - folhiflor - desliza
motivada na linguagem,
                                       rio
calcá
         rio que atravessa e executa
a solidão humana."

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Federico García Lorca, Poeta em Nova Iorque, 1930.

"Quero chorar porque me dá na gana,
como choram os meninos do banco de trás,
porque não sou um homem, nem um poeta, nem uma folha,
mas um pulso ferido que ronda as coisas do outro lado.

Quero chorar ao dizer o meu nome,
rosa, menino e abeto na margem deste lago,
para dizer minha verdade de homem de sangue
matando em mim a troça e a sugestão do vocábulo.

Não, não. Eu não pergunto, eu desejo.
Voz minha libertada que me lambes as mãos.
No labirinto de biombos é meu corpo nú o que recebe
a lua de castigo e o relógio sob a cinza.

Assim falava eu.
Assim falava quando Saturno parou os comboios
e a bruma e o Sonho e a Morte andavam a buscar-me.
Andavam a buscar-me
ali onde mugem as vacas que têm patinhas de pagem
e onde flutua meu corpo entre os equilíbrios contrários."

 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Diálogo com K. Stockhausen, 1985.

"E a coisa estranha que sai fora da marca de produção é considerada pouco interessante. Encontrar-se em sintonia com a bagagem dos sentimentos já não conta. As propostas da visão interior passam despercebidas. Aponta-se apenas para o que é didacticamente demonstrável, fornecendo a configuração verbal do que se vai fazendo."

domingo, 25 de junho de 2017

Agustina Bessa-Luís, O Concerto dos Flamengos, 1994.

       "A música tem qualquer coisa de assassino; mata em volta os nossos pensamentos, reduz o espírito a uma simples interdição."